Friday, 12 June 2009

Escrever




Sobre o escrever e o viver
Eu tenho muito o que dizer
Pois nem todas as palavras foram ditas
Nem toda vida é finita

Todo escritor é um parteiro das palavras
Que não necessariamente possui diploma
Nem pomposo certificado
Pois o parteiro se faz a cada parto
A cada novo grito de força e esperança
Que dá vida a uma nova criança

Viver não é diferente
Já que vida não possui escola
Pois cada dia tem o encargo de uma lição
Dita ou não dita
Aprendemos
Querendo ou não

Vivo então para escrever
E escrevo para viver
Dou a luz a cada dia
A uma palavra ou a uma idéia
Que torna-se vida
Pelo meu ensaio e erro do cotidiano
Na escrita, na fala ou
Principalmente
Em cada ação

Guilherme Ferreira

Sunday, 31 May 2009

Sentido



O homem na busca de um sentido
Pode perder a direção e a razão
Atropela-se
Pelo caminhão de cada emoção

Sem caminho
Anda em círculos
Pede por orientação
Muitas vezes sem resposta
Pois nem mesmo sabe a pergunta

Busca atalhos
E nesta carreteira
Pavimenta retalhos
Esburacada estrada provisória
Que leva a algum lugar ou a nenhum

Até que pára
Estaciona e pensa
Observa inebriados transeuntes
Que seguem mesma viagem sem destino
E chega a seguinte conclusão

O sentido verdadeiro
Não se trata de uma direção
Esquerda, direita
Para frente ou para trás

Mas parar e dar a preferência
Oferecer passagem
Para que o sentido que vem de dentro
Construa uma nova avenida
Verdadeira mas inacabada
Avenida Vocação

Guilherme Ferreira

Sunday, 10 May 2009

Fermento



Para minha mãe

Para quem me ensinou a ser fermento
E a massa toda tentar levedar
Escrevo um poema  pequeno como pó
Que a alma possa alimentar
Levedura que se transformará em alimento

Este para mim é o maior ensinamento
Saber ser grão
Ou gota d'água na imensidão do mar
Guardar em mim a pureza da humildade
Sem deixar a arrogância dominar

São estes ensinamentos de mãe
Que levedam em minha alma
Crescem com o tempo
Independente de intempérie
Ou alta temperatura

O alimento ainda não chegou ao seu ponto
Espera ainda o seu momento
Com paciência
Deixando a massa crescer
Grão a grão
Até virar bolo, quitute ou pão
Manjar para a humanidade
Um dia
Quiçá

Guilherme Ferreira

Sunday, 3 May 2009

Bach


Bach: Harpsichord Concerto #5 In F Minor, 
BWV 1056 - 2. Largo ( Jacques Loussier Trio)

Descobri Bach
O que antes soava como música enferrujada
Agora é música que desenferruja
Em meu pulmão respiro novo ar

Ar que oxidava
Agora sopra nova vida
Revitaliza
Permite-me ver outra dimensão

Melodia antiga
Tímida mas provocadora
Imagens inimaginadas
Porão que se ilumina
Sacando véus de minha visão

Novas cores
Novos matizes
Novas nuanças
Beleza que se descortina
Pura sublime e bela

Mundo que se imprimia
Em mim, em preto-e-branco
Agora, com Bach
Com novo brilho, luz e contraste
Pinta minha alma
Com a leveza de uma aquarela

Guilherme Ferreira

Teatro



Veja discurso de Augusto Boal sobre o dia mundial do teatro

da Folha Online - 25/03/2009 - 23h15

Leia abaixo a íntegra do discurso de Augusto Boal sobre o dia mundial do teatro, 27 de março. O pesquisador, diretor e dramaturgo foi nomeado como embaixador mundial do teatro pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

Leia a íntegra do discurso:

"Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática --tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa --nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento --é forma de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"

Saturday, 2 May 2009

Cegueira




Estes olhos que a terra há de comer
São os mesmos que me permitem enxergar
O que quero e não posso ver
O que não vejo e me faz alienar

Assim podemos viver a nossa cegueira diária
Viver sem crer
Crer sem viver
Ver sem crer
Crer sem ver

Um caminhar sem visão
Faz-nos tropeçar
Tombos feridos
Dor que certamente não remedia em vão

Então de tanto tombar
Hei de acordar
Os meus olhos se abrirão
Um novo mundo ante a mim renascerá
Mais uma oportunidade de aprender
O sensível, belo e extasiante
Exercício do olhar

Guilherme Ferreira

Saturday, 25 April 2009

Solista



Ser solista exige coragem
Diferente de vestir casaca ou fraque
Postar-se diante de um púlpito ou palco
Verdadeiramente é despir-se de falsa roupagem

Ser solista exige nudez
Deixar a máscara cair
Mostrar desnuda face
Sem medo de chorar ou rir

Ser solista exige solidão
Sem nostalgia ou tristeza
Alegre, estando só ou com gente de montão
Mas nunca em solidão acompanhada

Ser solista exige pés no chão
Sem negar voos do coração
Mas caminhar leve
Em terra firme sem gravitação

Ser solista resumidamente
Exige humildade sem hesitação
Nudez sem medo ou vergonha
Solidão sem isolamento
Caminhar sem estacas no chão

Ultimamente praticar um talento
Exercitar um propósito
Vocação que necessita de mente e corpo sãos
Veículos imprescindíveis
De todo instrumentista

Guilherme Ferreira

Sunday, 19 April 2009

Música


Bobby Mcferin

Dois grandes amigos uma vez me relataram que assistiram a uma performance de Bobby Mcferin ao vivo - confesso e não nego a minha inveja de não ter tido o mesmo privilégio. Deram-me também uma ótima maneira de descrevê-lo: "ele é a própria música encarnada..." Esta experiência, eles também me relataram, os fizeram refletir: "se este homem é a encarnação da música, com tamanha demonstração de talento, que talento podemos encarnar?

Este relato ficou gravado em mim desde então, suscitando-me diariamente este questionamento - qual é o meu talento? E, descobrindo-o, como posso encarná-lo com tanta intensidade e alegria quanto Bobby McFerrin?

A resposta ainda está para ser encontrada. Mas não tenho dúvida de que o seu encontro, ou até mesmo o processo de encontrá-la, será combustível para alimentar a chama eterna que queima escondida dentro de nós, esperando que seja acesa e difundida - a própria felicidade.

Guilherme Ferreira

Oblivion


Rastrelli Cello Quartet - Astor Piazzolla - Oblivion

Quem ainda não bebeu desta água
Ou olvidou-se de tal
Saiba que há males que vêem para bem
Sendo douto ou não
Há venenos que servem de antídotos
E arrisco-me nesta prescrição

Inconsciência
Mente nublada
Esquecimento
Visão eclipsada
Para quem não enxerga
A luz é coisa impensada
E desnecessária

Da consciência
O mesmo posso dizer
Pois quem não a tem
De fato não sabe de sua existência
Supérflua que é

Quem então não sabe
O antídoto não procura
Vive anestesiado
Em eterno eclipse
De sentidos velados
Em pseudotranquilidade

Mas também
Quem bebe desta água
Há de beber seu antídoto um dia
Pois querendo ou não
Consciência não é coisa que se escolhe ter ou não

Ela brota da terra
Como em nosso espírito
De suas profundezas
Como água de uma fonte
Que seus poros devassa
Destemida
Abrindo um curso no chão que não cicatriza
Pois ferida assim
Benéfica
A vida não cauteriza

Ferida que então se vivifica
Torna-se um rio
Pára para um descanso 
Formando um lago
Prossegue viagem
Até chegar ao mar
Onde se dissipa 
Esquecida

Até eu lembrar-me outra vez
Beber deste antídoto
E descobrir que maior que o mar
Reina o oceano

Guilherme Ferreira

Monday, 13 April 2009

Aniversário



Familia reunida em Cingapura - 13 de Abril de 2009

Já faz um tempinho que este espaço está abandonado
Não por descaso ou indolência
Mas por sequestros relâmpago da vida
Que nos rapta o tempo
Saca-nos o crédito que não temos
Endivida-nos conosco mesmos

Pois é, aniversário
Mais um ano para colocar no saco da viola
Deixá-la mais farta, pesada, mas sem pesar
Mais repertório para o violeiro
Que nesta carreira não quer parar

Um novo repente só começou
Novas rimas, novos versos, novos refrões
Não de repente o tempo já passou
Não volta mais
Mas ainda tem muito pela frente
Ainda muito frango caipira com açafrão
Infinitamente

Agradeço ao Criador
Na forma que ele for
Pela viola
O seu saco
As cordas
Que fazem de mim ainda um violeiro
Tocador amador
Sempre alegre com as novas rimas que aparecem pelo caminho
Entusiasmo incessante
De iniciante
Desafinado
Cantor
Trovador
Versador


Guilherme Ferreira