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Monday, 9 January 2012

Compromisso

























Coruja - Pablo Picasso

O que faz um bom devoto?
A intenção oculta
A palavra inscrita
O voto secreto
Ou a ação insólita?

A intenção revelada
Perde a virtude de seu anonimato
Ao cair o véu que lhe cobre
Por palavras escancaradas

A palavra inscrita
Se torna escrita
Quando a conotação se rende 
Em voto denotado

O voto secreto é violado
Ao se rasgarem as palavras
Escritas, inscritas
E todas as subscritas

A ação é insólita
Quando a intenção se mantém oculta
A palavra se mantém inscrita
O voto se mantém secreto
E o devoto de tudo acima
Se torna um atento guardião

Faz de uma intenção
A palavra e o voto
Abnegada ação
Um verdadeiro 
Compromisso

Guilherme Ferreira

Saturday, 29 August 2009

Frugalidade


Chris Jordan - "Cans Seurat"

Um modo de vida frugal
Hoje em dia e adiante
Não parece ser banal

De maneira diferente
O complicado se complica
O simples complexifica
E a gente, onde fica?

Enlata-se
Engarrafa-se
Encaixa-se
Embaraça-se

Todavia e contudo
Viver diferentemente
Não é tão simples assim
Exige tudo e mais nada
E um incomensurável pequeno esforço

Para Desenlatar-se
Desengarrafar-se
Desencaixar-se
Desembaraçar-se
Primeiramente e
Ultimamente

É necessário
Tudo
Mais nada
Contudo
Despertar-se

Guilherme Ferreira

Saturday, 15 August 2009

Intenção


Mark Mawson - Aqueous

Basta somente uma
A primeira
A debutante
A estreante
A primeva
A infante
A novata
Pura e verdadeira

E os desejos brotam
Água fresca no seio da nascente
Rompe a terra
E a crosta que reprime

Há de se beber então
Senão, desperdiça-se
Força prima e essencial
Onde a vida se alimenta e gravita

Guilherme Ferreira

Sunday, 2 August 2009

Mergulho


Underwater - Mark Mawson


Vida sem poesia
Deserto, sede e agonia
Bebo a gota de cada palavra que escassa
Na fatigada esperança de um oásis encontrar

As gotas que me restam
Já não podem saciar
Letras inodoras
Insípido fraseado
Predicado incolor

Mergulho então
Em uma busca incessante
Olho para dentro de mim
Inicialmente me afogo

Mas salvo por um fôlego
Sou resgatado
Nova palavra-salva-vidas
Deita-me em sua entranhada e colorida tessitura

De volta a superfície
Meus pulmões recheiam-se de novo ar
Vejo-me subitamente em um oceano
À deriva sem dúvida
Mas com um novo sintagma para navegar

Guilherme Ferreira

Sunday, 5 July 2009

Cochilo


Sunbaker - 1937 - Max Dupain - Australian 1911-1992

Repentino
Mergulho profundo
Pequena fuga, desatino
Júbilo de um cochilo

Mais cinco minutos
E dez
E quinze
E vinte
Sono eterno

Da horizontal
Desperta-se
Estira-se
Levanta-se
Aterriza-se

Da vertical
Caminha-se
Cansa-se
Rende-se
Levanta-se
Também

Sonha-se acordado
Acorda-se sonhando
Amanhece-se à noite
Anoitece-se de manhã

Vida em desenlace
Crepúsculo a esmaecer
Alvorada desabrocha-se
Ilumina, perfuma e colore
Viver é acordar
E renascer

Guilherme Ferreira

Thursday, 25 June 2009

Rue




Paris, 22 de junho de 2009

Ao seguir em frente
Ao caminho que nos leva
À esquerda ou à direita
Inevitavelmente
A escolha está à espreita

Encruzilhada então nos rodeia
Aborda, cerca e interroga
Interpela
Quem fica: roga uma nova rota
Quem foge: se atropela

Uma decisão então
Somente uma
Pavimenta nova rua
Reta ou torta, não importa

Quem porta o passo
E busca o seu próprio espaço
Faz das pedras pavimento
Das pernas com tropeço
O compasso de um recomeço

Guilherme Ferreira

Minute



Londres, 15 de junho de 2009

Em um segundo
Longo ou diminuto
A eternidade galopa
E leva a vida passageira
Em sua carruagem

Sem chofer
Sem redeas
Ou espora
Em um piscar de olhos
Aos trancos e barrancos
Perde-se tambem a estribeira

Ate quando o relogio badala
E um chamado toca como se fala:
Des
Per
Ta
Te!

O chofer entao toma posse das redeas
Calca as esporas que nunca calcou
A carruagem toma novo rumo
Novo passo, ritmo e direcao

Guilherme Ferreira

Saturday, 13 June 2009

Vontade


Edvard Munch (Norwegian, 1863-1944). Kiss by the Window, 1892. Oil on canvas.
73 x 92 cm (28 3/4 x 36 1/4 in.). NG.M.02812.
The National Museum of Art, Architecture and Design, Oslo.

Com a vontade de escrever
Nasce a palavra
Sem ela
A alma se cala

Com a vontade de amar
Nasce a alteridade
Sem ela
A solidão se instala

Com a vontade de fazer
Nasce a obra
Sem ela
A vida perece

Com a vontade de ser
Nasce alguém
Sem ela
Ninguém

Com a vontade de viver
Nasce a vida
Sem ela
Não sei

Sem vontade
Não posso nem dizer
Tampouco pensar
Ou me levantar

Com ela
Tudo posso
Desde que a tenha
Ofereça-lhe moradia
Abrindo portas e janelas
Sem medo de sua partida

Guilherme Ferreira

Friday, 12 June 2009

Escrever




Sobre o escrever e o viver
Eu tenho muito o que dizer
Pois nem todas as palavras foram ditas
Nem toda vida é finita

Todo escritor é um parteiro das palavras
Que não necessariamente possui diploma
Nem pomposo certificado
Pois o parteiro se faz a cada parto
A cada novo grito de força e esperança
Que dá vida a uma nova criança

Viver não é diferente
Já que vida não possui escola
Pois cada dia tem o encargo de uma lição
Dita ou não dita
Aprendemos
Querendo ou não

Vivo então para escrever
E escrevo para viver
Dou a luz a cada dia
A uma palavra ou a uma idéia
Que torna-se vida
Pelo meu ensaio e erro do cotidiano
Na escrita, na fala ou
Principalmente
Em cada ação

Guilherme Ferreira

Wednesday, 24 December 2008

Legadema



Legadema: em Sewswana: luz que vem do céu



A natureza e os seus mistérios
Que não precisam de oráculo, ou de acelerador de partículas, para serem desvendados
Somente os olhos para ver e o coração para sentir
Que o amor, em sua simplicidade, não é um conceito meramente humano
Todavia um sentimento universal que não precisa de cérebro, pensamento ou palavra articulada
Nem a urgência da necessidade
Somente a instintiva premência da convivência
Que mesmo com as diferenças não é lunática utopia
Mas realidade que nos chama no calor do agora
Quando nos despimos do Eu que nos entorpece
Para nos unirmos a um outro Eu em humilde sinergia

Guilherme Ferreira

Sunday, 21 September 2008

Bibliothèque



École des hautes études en sciences sociales - 16/09/2008

Não é a toa
Sabor vem de sapore
Saber de sapere
Ambas palavras de mesma origem no latim
Explicam-me algo que até então era irracional para mim

Não há saber que não é construído com sabor
Assim como não se saboreia a vida sem um pouco de saber

A biblioteca desta forma é um grande centro gastronômico
Lá se encontram todos os ingredientes necessários para uma vida melhor
Todavia os ingredientes precisam de quem os prepare
Corte-os, cozinhe-os, conserve-os
Precisam também de uma panela, fogo e a medida certa
Receita individual que cada chef constrói para si

Na condição de aprendiz de cozinheiro
Visitei a cozinha de grandes chefs
Saboreei ingredientes que não conhecia
Cheiros, texturas, cores, sabores...
Amargo, doce e salgado

O desafio, entretanto, é o que fazer com tantas especiarias
Que não fiquem só conservados na cabeça
Que sejam temperados no coração
E misturados pelas mãos
No caldeirão diário da vida

Guilherme Ferreira

Tuesday, 5 August 2008

Bolero




Esta é uma daquelas músicas que posso escutar consecutivamente mais de uma vez sem cansar. Cada vez que a escuto, sinto algo diferente. E dado ao poder de todo bolero, me transporto para um outro lugar - sempre novo.

Não é a toa que muitos compositores possuem a própria versão: Ravel, Chopin e também Vicente Amigo que podemos assistir neste vídeo. Daí me pergunto o porquê, podendo chegar a conclusão que o bolero possui exatamente esta magia de sequestrar a mente por alguns instantes e nos levar para territórios desconhecidos. Sendo esta magia uma das virtudes da música, daí se dá a escolha destes compositores por este ritmo lento e hipnotizador. Este bolero (de Vicente), em particular, foi dedicado a um dos filhos de Vicente Amigo, por seu nascimento. E como por coincidência, ou talvez intencionalmente, ele me transporta para muitos lugarejos diferentes que fazem parte de uma mesma vizinhança que posso classificar como Paternidade.

Paternidade, 10 de Agosto de 2008

Lugarejo onde mora a ternura
Um outro (lugarejo) da atenção a distância, mas não distante
E assim por diante...
Autoridade que educa, mas não machuca
Colo que protege e aquece, chama que não queima
Palavra assertiva que acerta direto o coração
Olhar que cala sem falar nem gritar
Conselho atestado pela experiência

Ainda estou um pouquinho longe desta vizinhança
Um dia, não muito longe, com certeza
Irei a paternidade habitar
E talvez brote a inspiração para um bolero
Como este, de Vicente
Para a alegria de ser pai registrar
Sentimento que faz do homem mais homem
Mais decente
Pois amplia a capacidade de amar
E de admitir ser amado

Guilherme Ferreira

Sunday, 3 August 2008

Simplicidade

Gosto muito de música. A língua francesa é como música para os meus ouvidos. Não por acaso, utlimamente, tenho procurado e assistido a tantos filmes franceses. O último, "Ensemble, c'est tout" de Claude Berri me inspirou a pensar sobre a Simplicidade. A estória não tem nada demais, nem super-produção - e aí reside a sua beleza e sua capacidade de tocar a alma da audiência. Retrata a vida de quatro indivíduos isolados que passam a criar conexões entre si, sem passes de mágica e pirotecnia hollywoodiana, e aprendem nas situações mais simples a arte humana da convivência.

Uma reflexão importante a se fazer, ao se constatar que na verdade vivemos em bando - diariamente esbarrando ombros sem perceber que temos em comum a capacidade de conviver e de amar. Todavia, a Simplicidade é um tema muito pretensioso que eu em meu engatinhar não ousarei intentar a escrita.

Por isso, a deixo para um pensador que gosto muito: Rubem Alves. Ele fala sobre Simplicidade e Sabedoria, como sempre, de uma maneira muito simples e palatável. Vejam abaixo, e desde já me classifico no grupo daqueles pássaros, que segundo o autor, voam pela manhã da juventude...Ai ai ai!


Sobre Simplicidade e Sabedoria

Rubem Alves

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.

Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.

No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.

Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.

Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26).

O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.

Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“

Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“

Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“

Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um...

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta...“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...“ “Resta essa capacidade de ternura...“ “Resta esse antigo respeito pela noite...“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza...“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.

Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.

Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.

Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração...“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)

Sunday, 6 July 2008

Piano



À minha professora de piano

Inspirar e expirar cada frase

Não há outra forma de sorver a música

E o piano tocar


Muita paciência

Sem exagerar no fortíssimo

Sem ambicionar mais que o virtuose

Tentar acelerar e nas teclas tropeçar


Só tocar o Tico-Tico, sem parar

Exagerar e apanhar do cavaquinho

Uma obsessão pelo tango inexplicável

La Cumparsita, Mi Buenos Aires querido

Mais fortemente a paixão por Adiós Nonino

E ao errar, melhor parar e perguntar


O improviso é de se admirar

Todavia não há música sem o suor

Sem técnica e alma

E o constante praticar


Obrigado professora pelo piano

Por tudo o que ele hoje me oferece

Hoje não sou pianista

Ao menos profissionalmente

Não é tocando que faço o meu ano

Todavia o piano e a música

Fazem de mim um homem diferente


Pois além de tocar um pouquinho

Aprendi a escutar

A você

A mim mesmo

Ao silêncio do outro

A voz do meu próprio coração

Às melodias soltas pelo ar

Mas, principalmente, escutar a minha própria vocação


Fazer da vida uma arte

Sem necessariamente viver dela

Senti-la escrita em mim como em um antigo pergaminho

E escrevê-la a cada momento

Levantando-a

Onde quer que eu vá

Como um porta-estandarte


Guilherme Ferreira

Sunday, 15 June 2008

Muralha


Grandiosa, colossal
Beleza que os olhos dissolve
Perde-se de vista no horizonte
Pretensiosa para dividir o bem e o mal
Fortaleza que conflitos não resolve

Eterna para maravilhar
Que a chuva incessante não me barrou
Visão lacrimosa, fez lento o meu palmilhar
O céu, sim, parece que se rebaixou
Nuvens descendo em marcha
Em caravana para a este monumento se curvar

A guia a me guiar me disse:
Não adianta, único lugar que não tem começo
Não tem ponto-de-partida nem de chegada
Com incessante caminhar
Não chegaremos a lugar algum
Sim, a um ponto no meio do caminho
- Gui, você escolhe onde é o seu fim

Então caminhei
A chuva caiu, para testar a ambição
De tabela, também, veio misericordiamente
com gotas gordas a me refrescar
Empolgado e ensopado, galguei cada degrau
- Thi, tá faltando tênis com shushi na meia-noite, não?
Pensei...
O fôlego, então, aos poucos desfaleceu
O ânimo paulatinamente se esvaiu
Cansei, encontrei o meu fim
Humildemente, parei sem me boicotar
Até o momento
Pois a vida não acaba assim, nem ali

Cume, parada final
Dali, não pude ultrapassar
Uau, ufa, surreal
Paisagem intocada
Mas cheira a tinta fresca
Tela que parece que pintada por Dalí

Parei meu palmilhar
Os pés trêmulos de tanta fatiga
Restou-me a minha própria respiração escutar
Sentar, contemplar o cenário de cima da muralha
E, em meditação, me elevar

Naquele momento
Unicamente, a muralha se encontrava acima das nuvens
O meu encontro com o divino,
ela, de caso pensado, pretendia facilitar
E uma mensagem, sutilmente
Aos pés de meus ouvidos soprar:

Não há muralha maior que esta
Senão aquela que há dentro de você
Que lhe deixa inseguro
Ansioso ou em cima do muro

Muralha que separa o homem velho do homem novo
Que guerreiam em seus lados opostos, murro após murro
Muralha que criamos para nós mesmos
com desnecessária imaginação
Mas muralha quebrantável
Por um único desejo
Inalienável e verdadeiro
Bem intencionada
Forte, extensa e grandiosa
Ação

Guilherme Ferreira

Sunday, 27 April 2008

Lips


Not far from the lips
Either words or kisses
An elegy, a comedy, a praise
The virtue of the mouth
Is to depict a joyful fate
Or differently, to bail it out from paradise

A sacred vow
Or an outrageous heretic speech
Depends on one´s tongue
The unbearable desire to mockingly put somebody down
Or the craving for dawning it on a colorful sunrise

A statement is on the verge
Dust is away because the pure air is an attempt
Either deep or shallow breathing
It´s when the word is at stake
Drawing a breath,
Fulfilling or shrinking the lungs
One might be drawing a line
Between a word which might be good or bad
The truth, a lie or a true lie

There is no fine for such crime
When a blemish is whispered
But, believe me, there is no exquisite reward
Better than the beautiful word
Herein one´s voice
Talking with love
Even in a silent claim

Guilherme Ferreira

Breathe

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Sunday, 13 April 2008

Fado



(Video de Mariza cantando "Ó Gente da Minha Terra" - de Amália Rodrigues)

Fado
Da gente da minha terra
Entra fundo na alma
Brotando um ufanismo inevitável

Sou brasileiro de nascença
Português talvez de fato
O destino, ninguém sabe
Certamente remixado
Com um pouco de dolência
Mas com mais alegrias sempre ao lado 

Fado vem de fatum
Fatum do latim é destino
Todavia o meu
Por mais que se duvide
Não é Fado consumado

Pois o Fado se canta sozinho
E sempre pode ser mudado 
Quando acompanhado de uma nova guitarra
Por mais que se caminhe improvisado
O Guitarrista, hoje inacreditado, sem dúvida 
Sempre estará ao nosso lado

Com a voz em solo
E a alma livre fora do solo
Quero cantar o meu Fado
Sozinho, mas sempre acompanhado

Fado da gente da minha terra
Que caminha sempre
Com destino mirado
Com mãos e dedos pela guitarra da vida calejados
E com o corpo suado
Forte e saudável
Em busca incessantemente
De um Fado elevado