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Saturday, 29 August 2009

Frugalidade


Chris Jordan - "Cans Seurat"

Um modo de vida frugal
Hoje em dia e adiante
Não parece ser banal

De maneira diferente
O complicado se complica
O simples complexifica
E a gente, onde fica?

Enlata-se
Engarrafa-se
Encaixa-se
Embaraça-se

Todavia e contudo
Viver diferentemente
Não é tão simples assim
Exige tudo e mais nada
E um incomensurável pequeno esforço

Para Desenlatar-se
Desengarrafar-se
Desencaixar-se
Desembaraçar-se
Primeiramente e
Ultimamente

É necessário
Tudo
Mais nada
Contudo
Despertar-se

Guilherme Ferreira

Friday, 21 August 2009

Momento


"There is nothing in this world that does not have a decisive moment" Henri Cartier-Bresson

Momento decisivo
Imediata a mente mente
Intuitivamente
É diferente

Um clique
Uma ficha que cai
Os planetas se alinham
E a visão eclipsada
Desanuvia

Céu claro
Estrelado ou ensolarado
Tábula rasa
Tela em branco
Com pintor a espreita

Basta a primeira pincelada
Um ponto, um rastro ou rabisco
E mais nada

Faz-se temporal com um chuvisco
Mas também uma estrondosa e bela obra-de-arte
Em um ínfimo segundo
Com uma batida do coração

Guilherme Ferreira

Thursday, 25 June 2009

Rue




Paris, 22 de junho de 2009

Ao seguir em frente
Ao caminho que nos leva
À esquerda ou à direita
Inevitavelmente
A escolha está à espreita

Encruzilhada então nos rodeia
Aborda, cerca e interroga
Interpela
Quem fica: roga uma nova rota
Quem foge: se atropela

Uma decisão então
Somente uma
Pavimenta nova rua
Reta ou torta, não importa

Quem porta o passo
E busca o seu próprio espaço
Faz das pedras pavimento
Das pernas com tropeço
O compasso de um recomeço

Guilherme Ferreira

Friday, 12 June 2009

Escrever




Sobre o escrever e o viver
Eu tenho muito o que dizer
Pois nem todas as palavras foram ditas
Nem toda vida é finita

Todo escritor é um parteiro das palavras
Que não necessariamente possui diploma
Nem pomposo certificado
Pois o parteiro se faz a cada parto
A cada novo grito de força e esperança
Que dá vida a uma nova criança

Viver não é diferente
Já que vida não possui escola
Pois cada dia tem o encargo de uma lição
Dita ou não dita
Aprendemos
Querendo ou não

Vivo então para escrever
E escrevo para viver
Dou a luz a cada dia
A uma palavra ou a uma idéia
Que torna-se vida
Pelo meu ensaio e erro do cotidiano
Na escrita, na fala ou
Principalmente
Em cada ação

Guilherme Ferreira

Sunday, 21 September 2008

Bibliothèque



École des hautes études en sciences sociales - 16/09/2008

Não é a toa
Sabor vem de sapore
Saber de sapere
Ambas palavras de mesma origem no latim
Explicam-me algo que até então era irracional para mim

Não há saber que não é construído com sabor
Assim como não se saboreia a vida sem um pouco de saber

A biblioteca desta forma é um grande centro gastronômico
Lá se encontram todos os ingredientes necessários para uma vida melhor
Todavia os ingredientes precisam de quem os prepare
Corte-os, cozinhe-os, conserve-os
Precisam também de uma panela, fogo e a medida certa
Receita individual que cada chef constrói para si

Na condição de aprendiz de cozinheiro
Visitei a cozinha de grandes chefs
Saboreei ingredientes que não conhecia
Cheiros, texturas, cores, sabores...
Amargo, doce e salgado

O desafio, entretanto, é o que fazer com tantas especiarias
Que não fiquem só conservados na cabeça
Que sejam temperados no coração
E misturados pelas mãos
No caldeirão diário da vida

Guilherme Ferreira

Saturday, 23 August 2008

Luz



"There´s only One Sun" - Wong Kar Wai



"Há somente um sol, mas que viaja o mundo todo dia. Ele é todo meu e eu nunca irei me desfazer dele!" Marina Tsvetaeva


Um sol para todos
Solamente, vezes acompanhado por outras estrelas
Viaja o mundo diariamente

Um dia por vez
De este a oeste
Acima de nossas cabeças
A luz se faz presente

Apaga-se à noite, temporariamente

Outra luz, todavia
Encontra-se apagada de nossa memória
Não definitivamente
Pois se acende dentro de nós
Inesperadamente
Toda vez que a ilusão se põe a oeste
E permitimos que a vida nasça a leste

A cegueira nos faz noturnos

De espreita, à nossa espera
A manhã se faz latente
Mas a teimosia nos entardece

Pergunto-me então:
Quando amanhecerei?

Para esta inquirição
Com minha cegueira
Ainda não encontrei solução

Mas faço uso de um jargão
Há sempre luz no fim do túnel
Para aquele que acorda todo dia
Voluntariamente fazendo o seu próprio amanhecer

Fazer do entardecer um mero detalhe
Da noite, a temporária ausência de luz
Pois para aquele que a possui dentro de si
A escuridão é uma exterioridade passageira

Pede carona na estrada e nos seduz
Mas fica para trás se o motorista acende o farol
Sem dormir no volante
Atento e diligente, seguindo em frente

Guilherme Ferreira

Sunday, 10 August 2008

Cor



Uma página em branco
Sentar-se em um banco
Como o pensador de Rodin
Deixar a estória da vida projetar
Passar pela mente como em um ecrã

Curiosíssimo
Pois vejo as memórias em preto-e-branco
Não multi-coloridas no momento que as vivi
A mente engana, monocromática que é
Apaga as cores, as deixam para milissegundos de déjà-vu

O passado então misteriosamente torna-se bicolor, logo após ser presente
O presente sempre é colorido até o ponto onde torna-se passado
A vida, portanto, é policromática quando vivida no agora
O presente seqüestrado pelo passado, quando desperdiçado

Este segundo é uma paleta de cores que não voltam mais
Cabe ao pincel das nossas ações libertarem estas cores
Que são demasiadamente encarceradas pelos medos
E a espontaneidade é a única capaz de nos render da prudência
Nossa algoz e carcereira que nos pinta em tons cinzentos
Cilício de pinceladas em seqüencia

Vale então deixar a mente que nos engana de lado
E pintar com o coração
Libertador
Que dá cor
Cora o viver
Com as cores que só o sentimento pode oferecer

Sentir que só é possível neste segundo
Este momento
Agora
Na ponta da língua
Quando todos os poros estão abertos
Os olhos arregalados
O nariz à espreita
E os ouvidos escancarados

Guilherme Ferreira

Tuesday, 5 August 2008

Bolero




Esta é uma daquelas músicas que posso escutar consecutivamente mais de uma vez sem cansar. Cada vez que a escuto, sinto algo diferente. E dado ao poder de todo bolero, me transporto para um outro lugar - sempre novo.

Não é a toa que muitos compositores possuem a própria versão: Ravel, Chopin e também Vicente Amigo que podemos assistir neste vídeo. Daí me pergunto o porquê, podendo chegar a conclusão que o bolero possui exatamente esta magia de sequestrar a mente por alguns instantes e nos levar para territórios desconhecidos. Sendo esta magia uma das virtudes da música, daí se dá a escolha destes compositores por este ritmo lento e hipnotizador. Este bolero (de Vicente), em particular, foi dedicado a um dos filhos de Vicente Amigo, por seu nascimento. E como por coincidência, ou talvez intencionalmente, ele me transporta para muitos lugarejos diferentes que fazem parte de uma mesma vizinhança que posso classificar como Paternidade.

Paternidade, 10 de Agosto de 2008

Lugarejo onde mora a ternura
Um outro (lugarejo) da atenção a distância, mas não distante
E assim por diante...
Autoridade que educa, mas não machuca
Colo que protege e aquece, chama que não queima
Palavra assertiva que acerta direto o coração
Olhar que cala sem falar nem gritar
Conselho atestado pela experiência

Ainda estou um pouquinho longe desta vizinhança
Um dia, não muito longe, com certeza
Irei a paternidade habitar
E talvez brote a inspiração para um bolero
Como este, de Vicente
Para a alegria de ser pai registrar
Sentimento que faz do homem mais homem
Mais decente
Pois amplia a capacidade de amar
E de admitir ser amado

Guilherme Ferreira

Sunday, 3 August 2008

Simplicidade

Gosto muito de música. A língua francesa é como música para os meus ouvidos. Não por acaso, utlimamente, tenho procurado e assistido a tantos filmes franceses. O último, "Ensemble, c'est tout" de Claude Berri me inspirou a pensar sobre a Simplicidade. A estória não tem nada demais, nem super-produção - e aí reside a sua beleza e sua capacidade de tocar a alma da audiência. Retrata a vida de quatro indivíduos isolados que passam a criar conexões entre si, sem passes de mágica e pirotecnia hollywoodiana, e aprendem nas situações mais simples a arte humana da convivência.

Uma reflexão importante a se fazer, ao se constatar que na verdade vivemos em bando - diariamente esbarrando ombros sem perceber que temos em comum a capacidade de conviver e de amar. Todavia, a Simplicidade é um tema muito pretensioso que eu em meu engatinhar não ousarei intentar a escrita.

Por isso, a deixo para um pensador que gosto muito: Rubem Alves. Ele fala sobre Simplicidade e Sabedoria, como sempre, de uma maneira muito simples e palatável. Vejam abaixo, e desde já me classifico no grupo daqueles pássaros, que segundo o autor, voam pela manhã da juventude...Ai ai ai!


Sobre Simplicidade e Sabedoria

Rubem Alves

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.

Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.

No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.

Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.

Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26).

O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.

Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“

Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“

Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“

Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um...

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta...“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...“ “Resta essa capacidade de ternura...“ “Resta esse antigo respeito pela noite...“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza...“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.

Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.

Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.

Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração...“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)

Sunday, 6 July 2008

Piano



À minha professora de piano

Inspirar e expirar cada frase

Não há outra forma de sorver a música

E o piano tocar


Muita paciência

Sem exagerar no fortíssimo

Sem ambicionar mais que o virtuose

Tentar acelerar e nas teclas tropeçar


Só tocar o Tico-Tico, sem parar

Exagerar e apanhar do cavaquinho

Uma obsessão pelo tango inexplicável

La Cumparsita, Mi Buenos Aires querido

Mais fortemente a paixão por Adiós Nonino

E ao errar, melhor parar e perguntar


O improviso é de se admirar

Todavia não há música sem o suor

Sem técnica e alma

E o constante praticar


Obrigado professora pelo piano

Por tudo o que ele hoje me oferece

Hoje não sou pianista

Ao menos profissionalmente

Não é tocando que faço o meu ano

Todavia o piano e a música

Fazem de mim um homem diferente


Pois além de tocar um pouquinho

Aprendi a escutar

A você

A mim mesmo

Ao silêncio do outro

A voz do meu próprio coração

Às melodias soltas pelo ar

Mas, principalmente, escutar a minha própria vocação


Fazer da vida uma arte

Sem necessariamente viver dela

Senti-la escrita em mim como em um antigo pergaminho

E escrevê-la a cada momento

Levantando-a

Onde quer que eu vá

Como um porta-estandarte


Guilherme Ferreira

Tuesday, 1 July 2008

Mar


Eu e o mar
Sol a pino
Na cabeça um fedora
Para as idéias refrescar

A paisagem da vida se encontra no horizonte
Com mar aberto à frente e mais nada
A postos se encontra uma caixa de pandora à deriva para se abrir
Mistérios transbordando para se decifrar

Este para mim é o mar
Enigma para se desvendar
Metáfora da vida
Infinito para o olhar
Profundo para o meu fôlego
Imprevisível
Que não adianta tentar advinhar

Todavia multicolorido
Não somente para contemplação
Mas também aberto, como tela nova
Para novas cores se pintar

O meu mar ainda está bem aberto
Que continue assim quiçá
Pois aberto haverá sempre o horizonte à vista
Rotas infinitas para se traçar

Deixo então a brisa da maré bater
Em todas direções
Assim bem longe
A minha pequena embarcação
Irá navegar

Guilherme Ferreira

Sunday, 15 June 2008

Muralha


Grandiosa, colossal
Beleza que os olhos dissolve
Perde-se de vista no horizonte
Pretensiosa para dividir o bem e o mal
Fortaleza que conflitos não resolve

Eterna para maravilhar
Que a chuva incessante não me barrou
Visão lacrimosa, fez lento o meu palmilhar
O céu, sim, parece que se rebaixou
Nuvens descendo em marcha
Em caravana para a este monumento se curvar

A guia a me guiar me disse:
Não adianta, único lugar que não tem começo
Não tem ponto-de-partida nem de chegada
Com incessante caminhar
Não chegaremos a lugar algum
Sim, a um ponto no meio do caminho
- Gui, você escolhe onde é o seu fim

Então caminhei
A chuva caiu, para testar a ambição
De tabela, também, veio misericordiamente
com gotas gordas a me refrescar
Empolgado e ensopado, galguei cada degrau
- Thi, tá faltando tênis com shushi na meia-noite, não?
Pensei...
O fôlego, então, aos poucos desfaleceu
O ânimo paulatinamente se esvaiu
Cansei, encontrei o meu fim
Humildemente, parei sem me boicotar
Até o momento
Pois a vida não acaba assim, nem ali

Cume, parada final
Dali, não pude ultrapassar
Uau, ufa, surreal
Paisagem intocada
Mas cheira a tinta fresca
Tela que parece que pintada por Dalí

Parei meu palmilhar
Os pés trêmulos de tanta fatiga
Restou-me a minha própria respiração escutar
Sentar, contemplar o cenário de cima da muralha
E, em meditação, me elevar

Naquele momento
Unicamente, a muralha se encontrava acima das nuvens
O meu encontro com o divino,
ela, de caso pensado, pretendia facilitar
E uma mensagem, sutilmente
Aos pés de meus ouvidos soprar:

Não há muralha maior que esta
Senão aquela que há dentro de você
Que lhe deixa inseguro
Ansioso ou em cima do muro

Muralha que separa o homem velho do homem novo
Que guerreiam em seus lados opostos, murro após murro
Muralha que criamos para nós mesmos
com desnecessária imaginação
Mas muralha quebrantável
Por um único desejo
Inalienável e verdadeiro
Bem intencionada
Forte, extensa e grandiosa
Ação

Guilherme Ferreira

Sunday, 8 June 2008

Beatriz



Onde está Beatriz?
Sei que estás por perto
A um passo, sem que ocupe o mesmo espaço
Ao alcance, como por um triz

Sentidos à flôr da pele, de lis
Um olhar sem precisar falar
Em tua presença, coração bate em aperto
Escutar sem parar, perder a noção do tempo
Deixar na alma os sons de sua voz penetrar

Minha mente já voa sem pés no chão
Seu cheiro transcende olfato e paladar
A lógica perdeu a razão
Já!

Beatriz
Imaginar a sua proximidade,
Mesmo que longe
Já me faz feliz

Poucos passos
Parecem milhas adiante
Um andar ou quatro
Não importa a distância
Se a minha mente a ti pode me transportar

Espero em esperança
O momento certo para me aproximar
E dizer que encontrei Beatriz
Sempre ali ao lado,
Sem perceber, como que por um triz
Direi, então:
Para ser mais que já sou, sem ti
Agora contigo
Serei mais feliz

Saturday, 26 April 2008

Sublime



"After silence that which comes nearest to expressing the inexpressible is music." 
- Aldous Huxley

Aventuro-me a traduzir uma citação que talvez seja incapaz de traduzir. Mas a tentativa não custa nada, além de não ser dolorida para um homem não conceituado. Aldous Huxley quis dizer que, além do silêncio, não há nada que se aproxima mais em expressar o inexpressível do que a música. Concordo em gênero, número e grau pois a música, na minha opinião, é a máxima expressão do que é sublime. E o sublime é inexpressível por um simples mortal.

Mais uma vez irei me recorrer ao latim como muleta conceitual. Afinal, não sou conceituado, e suficientemente graduado, para tomar como ponto-de-partida o meu achismo mortal. Sublime vem de sublimis do latim, que significa "olhando desde cima". Como terráqueos estamos submetidos às leis da gravitação. Os pés no chão são uma fatalidade, fato comprovadamente verdadeiro, por mais que digam que não - digo sobre todos aqueles metafísicos de plantão: poetas, filósofos, artistas de qualquer natureza e vocação.

Virtuoso é o homem que consegue sublimar-se. Ver de cima sem o efeito da gravidade. Volitar fora da carne que aprisiona os nossos sentidos - sentir desde cima, sem limites, desde alto, com sentimentos exaltados. Enxergar o que outros não vêem, a vastidão sem precedentes na nossa humana e limitada visão, tato, paladar, olfato e audição.

Portanto, não existe outra reação diante do sublime senão o estupefato silêncio do homem que não tem palavras sequer para uma simples expressão. E a música neste sentido, é pura contradição, pois é sublime e consegue ser o contrário do silêncio, o som e sua magnitude em ação. Todavia, mesmo aqueles mais astutos no uso das palavras, de joelhos ao chão, rendem-se a música sem reação. Sem rumo ou orientação, desesperadamente correm e recorrem ao dicionário que lhes fecha as portas de capa e contra-capa com um assertivo não!

Rachmaninoff é um dos mestres do sublime. Homem que é capaz de desafiar as leis da gravitação, volitar e encontrar sons, inspiração que nenhum outro homem no chão foi capaz de imaginar ou tocar. Este Concerto para Piano e Orquestra no.2, em seu segundo movimento, ajuda-me, em silêncio de boca calada e olhos arregalados, a definir o que vem a ser sublime, a levitar, a voar como se fosse alguém que nunca pisara em terra firme. E, para arrebatar, o concerto é interpretado por Nelson Freire, outro homem como Rachmaninoff que é médium do sublime para nós homens simples, cegos, calados e de pés descalsos calejados pelo chão.

Monday, 7 April 2008

Imagem




Ja falei de Imaginação
E de Poder, sentenças já lavrei
Quero agora falar do Poder da Imagem
Pois diz o provérbio que ela é mais poderosa que mil palavras
Ou uma grande palavra, que não é palavrão não

Por ser tão poderosa assim 
Contenho-me a usar poucas palavras
Pois mesmo as mais eloquentes palavras
Dizem não, querendo dizer sim

Línguas e dialetos
Dá-se conta de milhares
Mesmo aqueles que comungam da mesma
Um simples diálogo, sequer, não se dá por completo

São diferentes perspectivas
De certo ou errado, 
Só diferentes posições
Da mesma Verdade

Este é o problema da comunicação
Mesmo que se fale a mesma língua
Se divida o mesmo quarteirão
Ou cadinho de terra
Duas pessoas não se comunicam
Se a palavra não vier do coração

A língua do coração é o sentimento
Que das palavras se furta
Para fazer da imagem a própria fruta
Que preenche o momento
Em substancioso turbilhão

Este é o propósito da comunicação
Que dois corações ocupem o mesmo espaço
Formando um só
Mesmo que as leis da física
Pelo poder das palavras
Gritem em dircurso sua rejeição

A imagem é a Pangéia original
Mil vozes habitantes em uníssono
Terra da compreensão

Veja bem esta imagem
Da Terra Pangéia
Ela não nos propoe a verdadeira língua?
A língua sentimento, 
Língua da imagem
Imagem de um coração?