Monday, 9 January 2012

Compromisso

























Coruja - Pablo Picasso

O que faz um bom devoto?
A intenção oculta
A palavra inscrita
O voto secreto
Ou a ação insólita?

A intenção revelada
Perde a virtude de seu anonimato
Ao cair o véu que lhe cobre
Por palavras escancaradas

A palavra inscrita
Se torna escrita
Quando a conotação se rende 
Em voto denotado

O voto secreto é violado
Ao se rasgarem as palavras
Escritas, inscritas
E todas as subscritas

A ação é insólita
Quando a intenção se mantém oculta
A palavra se mantém inscrita
O voto se mantém secreto
E o devoto de tudo acima
Se torna um atento guardião

Faz de uma intenção
A palavra e o voto
Abnegada ação
Um verdadeiro 
Compromisso

Guilherme Ferreira

Friday, 30 December 2011

Identidade

imagem extraída de: http://hippychick7.deviantart.com/art/Fingerprint-109280947

Ninguém diz tê-la perdido
Acreditando que a carrega na carteira
Que nunca foi fraudada
Ou extraviada


Ledo engano
Não se trata somente de um mero documento
Todavia podemos perdê-la
Fraudá-la, extraviá-la, alterá-la, emprestá-la, roubá-la
Pois ela não é a primeira nem a derradeira


Pior quando não a possuímos
Impropriedade emprestada 
Embargada
Ou desapropriada


Somos grileiros de nós mesmos
Quando não somos de outrem
Ou vítimas de outra grilagem


Furtamos o que não possuímos
Lógico, diz o senso comum
Mas também é contraditório


Não há segunda via 
Para a primeira via que não temos
Não adianta pagar taxa no cartório
Contratar despachante
Procurar nos achados e perdidos 
Pagar fortunas para uma cartomante


Acredito que trata-se daquelas coisas 
Auto-outorgáveis
Intransferíveis
Indeléveis e 
Indelegáveis


Difícil de achar
Definir
Burilar
E manter


Mas quando a encontramos
Não precisamos de comprovação
Firma reconhecida
Ou autenticação


Pois é genuina
Sólida e única
Identidade


Guilherme Ferreira

Monday, 19 December 2011

Voltei



Praticamente um ano em ibernacao
Voltar a escrever esta me dando caimbra
Os dedos, os bracos, cada neuronio que perdeu uma ligacao

Por isso vale um pouco de aquecimento
Erro, acerto e falta de inspiracao
Vale tudo, ate abusar do leitor
Que sente a mesma caimbra
Contagiosa, empatica
E dolorosa paralisacao

O remedio
Ler, escrever, ler, dormir
Apagar, pensar, reconsiderar
Refletir, viver, respirar

Para que escrever?
Parei de pensar sobre isto
Pois me causou esta paralisacao

Decidi que voltarei a escrever para transpirar
Expelir ideias que nao servem mais
Para dar espaco para novas serem inspiradas

Guilherme Ferreira

Sunday, 18 September 2011

Sunday, 12 June 2011

Touché

Foto de René Maltête

























Fui golpeado
Não sei por quê
Só sei que fui
E que gostei

No embate de idéias
Em que entrei
Não há vencedor
Mas esgrimistas
Jogando por diversão

Estão em disputa
Sem rivalidade
Com mentes em labuta
Sem dono da verdade

O ponto em questão
Não é contencioso
Nem litigioso
Mas o desejo de pura criação

Desejo que arrebata
Que inspira
Que energiza
Que faz transpirar

É o desejo da arte
Da nova idéia
De fazer
De acontecer
Touché
Isto é 
Co-criação

Guilherme Ferreira

Tuesday, 31 May 2011

Tensão

Photo by Jan Masny

















Um amigo me disse
Que os sons mais belos
São extraídos de cordas em tensão

Hesitei
Pois muita pressão
Pode nos levar a quebrar
A cair
A desfalecer

Todavia acreditei
Quando a tensão operou
Em mim certa vez

Como uma bailarina nas pontas do pés
Um violinista na ponta dos dedos
Um trapezista de ponta-cabeça
Estiquei-me sem romper-me

Percebi que apesar do inevitável incômodo
Esticar-se
Desdobrar-se
Remexer-se
São também outras formas
Das mais simples
De crescer

Guilherme Ferreira

Monday, 23 May 2011

Possibilidades



Se Deus joga dados com o universo
Não sei, talvez nunca venha a saber
Todavia sei e tenho certeza
Das infinitas possibilidades da vida
E de infinitas palavras para este verso

A ansiedade bate forte
Gota por gota como tortura chinesa
Transborda a mente indecisa à deriva
De idéias imprecisas tripulando a cabeça

Nave sem capitania e timão
Vaga à mercê e à toa
Em epifania e contemplação

Alguns nos afirmam sem titubear:
Que tropeçamos nos próprios passos
Que esbarramos em nossos próprios braços
Em livre queda em um abismo sem salvação

Digo não, necessariamente
Pois vagar perdido pelo mundo
Pode ser diferente e importante
Mesmo que devagar

É liberdade indelével e sem lei
De descobrir portos desconhecidos
Onde um dia me ancorarei

Guilherme Ferreira

Monday, 18 October 2010

Ombros


Gustav Klimt - Mother and Child

Ombro que carrega
O peso que eleva
Leva leve
O fardo que abriga

Ombro que afaga
Dentro de si carrega
O ventre
Que assossega

Ombro que acolhe
Como mãos abertas
Não encolhe
Semeia o fruto que colhe

Ombro incondicional
Sempre disponível
Paz celestial
Que alivia
Inspira
Comove

Temos dois
Não por acaso
Um para carregar o próprio peso
O outro vacante
Para o peso de outrem

Aliviar e ser aliviado
Carregar e ser carregado
Abrigar e ser abrigado
Eis o nosso indelével fado
Leve fardo
Balsâmico
Colo

Guilherme Ferreira

Sunday, 5 September 2010

Homem Velho


Foto de Irving Penn

Nesta guerra não declarada
Cujo campo de batalha situa-se dentro de mim
Titilam duas espadas, uma delas enferrujada
Gabando-se de suas próprias falhas

A outra é empunhada em braço atrofiado
Que pelo desuso, ócio e indolência
Ergue-se solapado
Tímido de sua decência

Esta esgrima constante
Tem berço nos séculos
Duelo impermanente
Com trégua com data marcada

Este dia estará próximo
Com a rendição da arrogância
Com o esmaecer do ódio
Com o atenuamento da intolerância
Com a reeducação da concupiscência

Uma bandeira branca então será hasteada
Demarcando um nascente território de paz
A minha própria infante
Consciência

Guilherme Ferreira